O maior vencedor da história do turfe mundial acaba de ganhar um filme à altura de seus números. O trailer de “Photochart: Nascido Para Vencer” foi lançado juntamente com o pôster oficial e antecipa a jornada de superação de Jorge Ricardo, brasileiro que ultrapassou a marca de 13.350 vitórias e, aos 65 anos, continua montando. A produção chega aos cinemas em 27 de agosto.
Dirigido pelo cineasta Wagner de Assis em parceria com o jornalista Luis Erlanger, o documentário revisita seis décadas de pistas, recordes e rivalidades, mostrando como um garoto criado nos bastidores do Hipódromo da Gávea transformou-se no “Pelé” do turfe. O recorte humano da narrativa, reforçado por depoimentos inéditos, revela o impacto de Ricardo no esporte no Brasil e na Argentina.
Um herói sobre o lombo de um puro-sangue
Desde cedo, Jorge Ricardo conviveu com a pressão de um sobrenome pesado. Seu pai, Antônio Ricardo, era lenda nos hipódromos sul-americanos e moldou o talento do filho com disciplina quase militar. O filme exibe imagens raras de treinos na areia da Gávea, mostrando como a postura técnica e a leitura de corrida de Ricardinho – apelido que carrega desde a adolescência – nasceram em família.
Essa relação de mestre e discípulo orienta o eixo dramático do documentário. Ao mesmo tempo em que reforça a tradição de pai para filho, expõe o sacrifício físico de um esporte onde cada dieta severa, cada queda de cavalo e cada fratura contam. Segundo trecho mostrado no trailer, o próprio Ricardo admite: “viver de turfe é acordar todos os dias pronto para vencer ou cair”.
Recordes que parecem inatingíveis
- Mais de 30 mil montarias oficiais.
- Primeiro jóquei do mundo a chegar a 13.000 triunfos (25 de setembro de 2020).
- Único brasileiro a liderar estatísticas simultâneas no Brasil e na Argentina.
No filme, essas marcas são contadas com respaldo de dados e de testemunhas como o jornalista Paulo Gama, que acompanhou a maior parte da carreira do atleta. A diretora de fotografia intercala troféus, planilhas de tempos e transmissões de época para sublinhar a dimensão numérica do feito.
Bastidores da produção
Richard Ávila, produtor que já frequentava arquibancadas e cocheiras antes de pensar em cinema, encabeça o projeto ao lado da Cinética Filmes. A distribuição ficará a cargo da Film Connection. A equipe filmou em três países ao longo de dois anos, passando por Rio de Janeiro, Buenos Aires e Mar del Plata para resgatar arquivos familiares, prêmios e fitas guardadas por velhos cronistas.
O cuidado jornalístico se nota na seleção de vozes entrevistadas. Figuram no elenco:
- José Carlos Fragoso Pires Jr., proprietário de alguns dos garanhões mais vitoriosos da década de 1980.
- Lineu de Paula Machado, empresário que presidiu o Jockey Club Brasileiro em momentos decisivos.
- Membros da família Etchechoury, proprietários argentinos que alçaram Ricardo ao posto de ídolo internacional.
- Comentaristas de turfe da TV argentina, responsáveis por locuções clássicas de suas vitórias em Palermo e San Isidro.
Apesar de abarcar uma lista extensa de entrevistados, o longa se mantém focado no protagonista. Cada fala pretende ilustrar uma fase específica – ascensão meteórica, estagnação, lesões, retorno aos trilhos e, por fim, a quebra do recorde mundial.
Rivalidade que virou espetáculo
Um dos capítulos mais aguardados retrata a disputa entre Jorge Ricardo e Juvenal Machado da Silva. Nos anos 1980, a dupla transformou corridas noturnas na Gávea em eventos com atmosfera de Fla-Flu. Arquibancadas lotadas escolhiam lados, e o filme recria esse clima com fotografias de torcedores empunhando bandeiras, faixas e até tambores.
O contraste de estilos – Ricardo técnico, Juvenal ousado – alimentou manchetes e fofocas. Segundo depoimento de antigos radialistas, o páreo começava antes mesmo da largada: “era duelo psicológico, olhares trocados; quem piscasse primeiro perdia”, relata um deles no trailer.
Imagem: Hiccaro Rodrigues
Ponto alto: vitória 13.000
A corrida do dia 25 de setembro de 2020, no Hipódromo de San Isidro, recebe tratamento quase cinematográfico. Além das imagens oficiais, o documentarista recuperou gravações de celulares de fãs. Quando Ricardo cruza em primeiro, a locução argentina explode: “¡Récord mundial!”. É o clímax emocional do longa, segundo Wagner de Assis: “foi como ver um atleta quebrar o próprio limite diante dos olhos de quem o acompanhou desde o início”.
Retrato de um esporte em transformação
Embora centrado em um ídolo, “Photochart: Nascido Para Vencer” funciona como crônica da própria evolução do turfe brasileiro. Técnicos explicam o salto de profissionalismo na preparação de cavalos, veterinários descrevem avanços na medicina equina e dirigentes discutem a crise recente de público. Quando o filme contrapõe arquibancadas abarrotadas dos anos 1980 a cadeiras vazias de algumas provas atuais, surge a pergunta implícita: para onde vai o esporte sem novos Ricardos?
Nesse sentido, a narrativa se aproxima do tom de alerta. Fernando Lopes, ex-presidente da Confederação Brasileira de Turfe, defende no documentário que “figuras icônicas como Jorge são catalisadoras de interesse popular”. Ao se debruçar sobre a carreira dele, o longa discute a necessidade de renovar heróis para manter viva a tradição.
Agenda de lançamento
Com 110 minutos de duração, o filme tem pré-estreia marcada para 24 de agosto, em sessão beneficente no Hipódromo da Gávea. A renda será revertida para um fundo de assistência a profissionais de cocheira. No dia 27, a produção entra em circuito comercial nas principais capitais. Segundo a distribuidora, exibições comentadas com a presença do protagonista e dos diretores estão em negociação.
Ingressos antecipados começam a ser vendidos em 10 de agosto nos sites das redes de cinema. O plano de divulgação aposta em redes sociais segmentadas em grupos de corrida, lives com comentaristas de TV e conteúdo especial em podcasts esportivos.
Por que a história ainda fascina
Na era dos streamings, atletas que controlam suas próprias narrativas encontram espaço em séries documentais. No entanto, o caso de Jorge Ricardo foge ao padrão: ele se mantém em atividade, correndo contra adversários muito mais jovens. A câmera de Wagner de Assis acompanha treinos atuais para mostrar que, mesmo com placas metálicas no corpo, o jóquei continua afinado e competitivo. “Não sei viver sem a largada”, diz ele num dos trechos finais.
As imagens de seus últimos treinos encerram o trailer ao som de batidas aceleradas, deixando claro que a história não terminou. O filme se propõe, portanto, a ser tanto um registro biográfico quanto um lembrete de que recordes existem para provocar futuras gerações.
Com a estreia batendo à porta, “Photochart: Nascido Para Vencer” promete reacender o interesse pelo turfe e consolidar, no cinema, o lugar de Jorge Ricardo entre os maiores esportistas brasileiros de todos os tempos.
