O sétimo e penúltimo episódio da terceira temporada de Casa do Dragão surgiu com a já tradicional expectativa de grandes reviravoltas, mortes emblemáticas e a largada para um clímax bélico. “The Dragon in Winter” entrega parte desse pacote: devolve protagonismo a Aegon, exibe o impressionante retorno de Sunfyre e prepara o terreno para o confronto em Tumbleton.
Ao mesmo tempo, o capítulo alterna momentos de brilho com decisões narrativas que parecem emperrar personagens em círculos — sobretudo em Harrenhal. O resultado é um episódio impactante, porém desigual, que mantém viva a tensão política dos Sete Reinos enquanto evidencia algumas fissuras na adaptação televisiva.
Aegon reencontra dignidade ao lado de Sunfyre
Fuga frustrada em Pouso de Gralhas
Ferido, desacreditado e acompanhado apenas por Larys Strong e Tyland Lannister, Aegon tenta escapar de Pouso de Gralhas. A rota, porém, está vigiada por forças leais a Rhaenyra, interessadas sobretudo em capturar Tyland, guardião do ouro real escondido. Sem saída, o rei deposto liberta os companheiros de qualquer obrigação e decide encarar o cerco de frente, determinado a morrer com a espada na mão e não pelas costas.
O retorno do dragão destruído
Quando o bloqueio finalmente se fecha, Aegon brada sua legitimidade e, no auge do desespero, Sunfyre irrompe pela mata. Deformado como o cavaleiro, mas ainda feroz, o dragão salva o monarca e garante uma das sequências mais potentes da temporada. A atuação de Tom Glynn-Carney confere um inédito senso de honra a Aegon, resgatando-o do posto de figura descartável e recolocando-o no tabuleiro político.
Rhaenyra oscila entre poder absoluto e insegurança
Sonhos de Helaena e o medo da rainha
Na Fortaleza Vermelha, Rhaenyra interroga Helaena sobre visões que possam assegurar vantagem militar. A rainha exibe seis dragões, mas nenhum domínio sobre a própria ansiedade. A conversa revela uma Rhaenyra transformada: mais poderosa, porém refém do medo de perder aquilo que considera seu destino.
Crescente distanciamento de Daemon e laços com Mysaria
Os atritos com o marido se intensificam quando Rhaenyra descobre que Daemon ocultou o paradeiro de Rhaena. O casal não se separa formalmente, mas a confiança é abalada. Na mesma noite, a soberana busca consolo em Mysaria, cedendo a uma relação que mistura desejo e manipulação política. A aproximação entrega vulnerabilidade à rainha e reforça o oportunismo da ex-capitã dos sussurros.
Harrenhal estaciona: Alicent, Aemond e Alys
Tentativa de assassinato e envenenamento
Aemond continua mergulhado em culpa e desejo de aprovação materna. Alicent chega ao castelo escoltada por Ser Adrian Redfort, incumbido de matar o próprio príncipe. O plano falha: Aemond liquida o cavaleiro, e a rainha-mãe resolve envenenar o filho depois que ele admite ter tentado eliminar Aegon deliberadamente. Mesmo a tensão do ato, contudo, devolve a trama ao ponto de partida: Aemond volta a convalescer nos braços de Alys Rivers.
Repetição de temas maternos
A discussão psicanalítica entre poder, sexo e figura materna, já explorada ao longo das temporadas, ganha nova rodada sem avanço real. A excelente dupla Olivia Cooke e Ewan Mitchell sustenta as cenas, mas Harrenhal permanece como um cenário onde a história patina, desperdiçando tempo que poderia alimentar conflitos mais dinâmicos.
Imagem: Crédito: Reprodução / Imagem ilustrativa
Rhaena, Sheepstealer e o duelo aéreo sem peso
Tentativa de provar valor
Consumida pela culpa pela morte de Jacaerys, Rhaena acredita que eliminar Vhagar, dragão de Aemond, lhe renderá perdão da mãe. Ao lado de Daemon, parte em busca do colossal réptil, mas rapidamente se vê envolvida num confronto de quatro dragões. A sequência, apesar de ambiciosa visualmente, carece de emoção porque a série pouco dedicou a construir o vínculo entre Rhaena e Sheepstealer.
Consequências aquém do prometido
No fim, Rhaena é reconduzida à Fortaleza Vermelha, e a carnificina esperada transforma-se em espetáculo plástico. A adaptação, que suprimiu a figura de Nettles para repassar parte de sua trajetória à jovem Targaryen, ainda não demonstra clareza sobre o destino dessa linha narrativa.
Tumbleton à beira do caos
Corlys como refém e a pressão sobre Velaryon
No acampamento Hightower, Ormund mantém Corlys prisioneiro, chegando a decepá-lhe um dedo para provocar Alyn e, de quebra, semear dúvidas em Rhaenyra. A tática visa reduzir o ímpeto de ataque da frota Velaryon, peça vital para a ofensiva da rainha.
Ulf cortejado, Daeron alheio ao trono
Ormund identifica outra vulnerabilidade: Ulf, cavaleiro plebeu de Silverwing, ressentido pela falta de reconhecimento. O comandante oferece título de Lorde das Marés e domínio de Driftmark em troca de lealdade. A isca encontra terreno fértil num homem publicamente desprezado por Rhaenyra e Daemon. Paralelamente, Daeron, primo de Ormund, assume não desejar a coroa, revelação que reforça a complexidade moral do jovem e pode redesenhar alianças.
Forças e fraquezas de “The Dragon in Winter”
Elenco sustenta roteiro irregular
Emma D’Arcy, Tom Glynn-Carney, Olivia Cooke, Ewan Mitchell e Matt Smith convertem diálogos por vezes redundantes em performances carregadas de camadas. A volta de Sunfyre e o renascimento simbólico de Aegon sintetizam o melhor que a série pode oferecer ao equilibrar espetáculo e desenvolvimento de personagem.
Promessa de fogo na temporada: expectativa sob risco
Mesmo com tramas que teimam em não sair do lugar, o episódio cumpre a missão de montar o palco para Tumbleton. Traições latentes, dragões maltratados e vaidades feridas indicam um desfecho sangrento. Resta saber se o capítulo final conseguirá alinhar as peças dispersas e entregar a catarse que este penúltimo ato apenas insinuou.
