A Netflix volta a escorregar na comédia com “O Falcão do Golfe”, produção lançada nesta quinta-feira (16) que prometia devolver a Will Ferrell o brilho de sucessos como “O Âncora” e “Ricky Bobby”. Em vez disso, a série entrega seis episódios mornos, que diluem o carisma do astro em tramas desconexas e piadas contidas, a ponto de já figurar entre os piores lançamentos do ano.
O desperdício não se resume ao protagonista: Molly Shannon, Jimmy Tatro, Fortune Feimster, Luke Wilson e outros nomes de peso passam pela tela sem recebem espaço para aparecer. Entre um merchandising da PGA e outro, a produção perde a chance de explorar o drama de um ex-campeão que tenta retomar a carreira e a família, mas acaba apenas repetindo clichês esportivos sem qualquer emoção.
Uma promessa de risadas que não se cumpre
Trama sem rumo
Lonnie “The Hawk” Hawkins (Ferrell) dominava o golfe mundial até sofrer um colapso emocional horas antes de conquistar o Grand Slam. Anos depois, ele vaga por circuitos menores, tropeça em patrocínios decadentes e tenta se aproximar do filho Troy (Jimmy Tatro), também profissional do esporte. O ponto de partida tem tudo para misturar redenção, rivalidade familiar e a boa e velha autossabotagem típica das personas de Ferrell. Contudo, a série jamais define qual dessas frentes quer priorizar.
Ora o protagonista age como um adolescente mimado, ora surge como pai arrependido, depois retoma o papel de celebridade egocêntrica — e nenhuma dessas facetas avança. Falta ao roteiro um objetivo claro: Lonnie quer voltar ao topo? Reconquistar a ex-esposa Stacy (Molly Shannon)? Ou simplesmente provar algo para si? Sem essa âncora dramática, cada episódio parece isolado, e o espectador termina sem entender o que move o herói.
Elenco de peso, material leve
A frustração aumenta quando se nota o calibre dos coadjuvantes. Shannon recebe pouco mais que a função de soltar comentários sarcásticos; Tatro, ótimo no humor físico, fica restrito ao papel de filho ressentido; Fortune Feimster, Luke Wilson, Chris Parnell e David Hornsby entram e saem de cena sem espaço para mostrar serviço. É um desperdício coletivo de timing cômico que poderia enriquecer as situações mais banais.
O resultado são participações episódicas que não afetam o arco central. Personagens surgem para resolver ganchos rápidos e desaparecem logo depois, como se a série não confiasse na própria continuidade. Até mesmo a rivalidade pai e filho, vendida como o motor do enredo, se resume a discussões repetitivas e resoluções apressadas, sem construir tensão real.
Golfe vira mero merchandising
Histórias esportivas bem-sucedidas, de “Ted Lasso” a “Happy Gilmore”, transformam o campo de jogo em palco de conflitos pessoais. “O Falcão do Golfe” prefere usar o circuito profissional como vitrine de marcas, eventos e aparições especiais de atletas reais. Os torneios não revelam caráter nem mudam o rumo da temporada; funcionam apenas como pano de fundo para piadas que raramente passam do sorriso protocolar.
Em vez de explorar a pressão de um putt decisivo ou o isolamento emocional de um atleta em decadência, a direção se contenta em encaixar logos da PGA e trocadilhos sobre tacos e caddies. Falta paixão pelo esporte — e, sem isso, falta também substância às derrotas e vitórias do protagonista.
Imagem: Netflix.
Humor contido, drama raso
Will Ferrell brilha quando pode extrapolar: seus personagens costumam atravessar a linha do bom senso para arrancar gargalhadas. Aqui, tudo parece domesticado. As poucas cenas em que o ator investe no humor físico, seja tropeçando em um carrinho de golfe ou berrando slogans motivacionais, terminam antes de desabrochar. É como se a produção tivesse medo de soar exagerada e, ao aparar as arestas, aparasse também a graça.
O oposto se aplica ao drama. Os roteiristas ensaiam discussões sobre saúde mental, fracasso e paternidade, mas recuam antes de aprofundar qualquer tema. A combinação de piadas tímidas e conflitos suaves resulta num tom morno, incapaz de fisgar quem procura inspiração esportiva ou quem só quer dar boas risadas.
Quando a falta de ousadia vira o maior defeito
A sensação de autocensura acompanha toda a temporada. Ninguém é realmente antipático, nenhuma decisão tem consequências duradouras, e mesmo as derrotas parecem pouco traumáticas. Essa escolha vai de encontro à carreira de Ferrell, baseada justamente em personagens que beiram o absurdo. Ao impedir que “The Hawk” voe alto — ou caia de vez —, a série se recusa a arriscar e, por consequência, a marcar presença.
Comparações inevitáveis
O insosso se torna ainda mais evidente quando o público lembra de outras produções que uniram esporte e comédia de forma mais ousada. “Eastbound & Down” mergulhava no ridículo para satirizar o beisebol, enquanto “Ted Lasso” equilibra otimismo e profundidade emocional no futebol. Frente a esses exemplos, “O Falcão do Golfe” aposta no caminho mais seguro e termina sem personalidade.
Potencial desperdiçado
Comédia esportiva não é, por si só, um gênero fadado ao fracasso. O elenco afinado e a premissa de um veterano tentando o último voo ofereciam terreno fértil para explorar arrogância, empatia, recaídas e superação. Entretanto, tudo fica no esboço, como se o set funcionasse à base de primeiras versões de piadas e rascunhos de conflitos, sem que ninguém tivesse tempo — ou coragem — de lapidar o material.
Saldo final
No fim, “O Falcão do Golfe” não chega a ser uma experiência penosa. Os episódios fluem, a trilha é agradável e o elenco transmite simpatia suficiente para evitar o tédio. O problema é a falta de qualquer elemento memorável. Pouco depois dos créditos finais, sobra apenas a lembrança de que Will Ferrell já fez rir muito mais, com muito menos recursos, e que a Netflix desperdiçou outra chance de entregar uma grande comédia original.
