Magnatas do Crime 2ª temporada chega à Netflix tentando repetir a receita que colocou a série de Guy Ritchie entre as estreias mais comentadas do streaming no ano passado. A dupla Eddie Horniman (Theo James) e Susie Glass (Kaya Scodelario), motor afetivo e cômico da narrativa, passa boa parte dos novos oito episódios em rotas distintas. A decisão muda o tom da trama, realça a ambição do herdeiro e, ao mesmo tempo, fragiliza a química que sustentava a marra dos diálogos.
Mesmo assim, o seriado ainda desfila aquela elegância suja que só Ritchie domina: palavrão bem colocado, violência estilizada e piadas secas disparadas em alta velocidade. O resultado fica abaixo da estreia, mas não desconvida ninguém que já estava envolvido com o império ilegal montado em Halstead Manor.
Eddie mergulha de cabeça na fome de poder
A guinada mais visível começa pelo protagonista. Após provar que consegue comandar a engrenagem criminosa da família, Eddie perde qualquer pudor em expandir fronteiras e subir a régua do perigo. Theo James, agora sem a inocência que pautava o personagem no primeiro ano, adiciona pequenas rachaduras ao charme: um olhar mais frio, respostas curtas que cortam como navalha e uma postura que não hesita em sujar as mãos quando a diplomacia falha.
Essa transição sustenta o arco mais sólido da temporada. Eddie não vira vilão de desenho animado, algo que seria cômodo, mas um sujeito seduzido por oportunidades cada vez mais lucrativas. A nuance garante ao ator seu melhor material na série até aqui e dá ao público uma sensação incômoda: torcemos pelo crescimento dele mesmo quando as ações resvalam em brutalidade.
Química em falta pesa no ritmo
A grande perda está na distância entre Eddie e Susie. Kaya Scodelario continua impecável, ambulando entre sarcasmo e elegância como quem troca de casaco. Só que a roteirização colocou a executora para resolver pepinos paralelos durante boa parte dos episódios, enquanto o protagonista lida com novas alianças duvidosas. Cada um em seu quadrado, e a série perde o tempero que nascia do choque de estilos dos dois.
Alguns arcos tentam preencher o buraco emocional apresentando interesses amorosos separados. Nenhum convence. Falta tempo de tela, falta tensão genuína e, acima de tudo, falta a faísca que acontecia quando Eddie e Susie negociavam trocando insultos afetuosos. A ausência pesa principalmente no miolo da temporada, onde o ritmo derrapa.
Episódios alongados, conflitos apressados
Oito capítulos parecem enxutos no papel, mas a montagem por vezes estica temas secundários que renderiam metade do tempo. Há momentos em que um telefonema resolveria a pendência, mas a produção decide apostar em perseguições ou reuniões intermináveis. Em contrapartida, acontecimentos essenciais, como reviravoltas de lealdade dentro da família Horniman, recebem poucos minutos e perdem impacto.
A sensação de gangorra fica marcada em dois terços da temporada. A trama viaja até a Itália, desfila locações turísticas e enquadramentos caprichados, só que volta para casa sem trazer personagens memoráveis daquela frente. Funciona como cartão-postal, não como evolução dramática.
Coadjuvantes ganham espaço — uns aproveitam, outros nem tanto
Ao afastar o casal central, a narrativa abre caminho para rostos que mal apareciam no ano anterior. Geoff (Vinnie Jones) assume o posto de coração leal do clã, ainda bruto, porém agora deixando transparecer vulnerabilidade quando a família corre risco. Cada diálogo dele carrega afeto genuíno, contraste saboroso com o cinismo geral de Halstead Manor.
Lady Sabrina, por sua vez, deixa de ser apenas a matriarca ansiosa. Ela entra em cena como peça decisiva em negociações que definem o fechamento de temporada e, finalmente, ganha conflitos próprios. O aprofundamento da personagem rende bons embates domésticos e mostra que o roteiro pode extrair mais das figuras que orbitam Eddie e Susie.
Imagem: Netflix.
Do outro lado, alguns recém-chegados não empolgam. Capos italianos aparecem, ameaçam, somem rápido ou retornam sem força dramática. A escala aumenta, mas o peso dramático não acompanha.
Mantendo a assinatura Guy Ritchie
Mesmo claudicante no ritmo, a série mantém a marca registrada do cineasta: trilha sonora pulsante, corte rápido de câmera e violência que flerta com o cartunesco sem perder a veia sanguinolenta. Quando a música sobe e os capangas entram em quadro, o público reconhece imediatamente quem está no comando. E isso ainda diverte.
Os diálogos continuam afiados. Frases curtas, farpas trocadas no corredor e insultos que ecoam classe britânica em vestido de gala. Essa combinação segura a maratona, especialmente nos episódios em que a trama parece pisar em falso.
A temporada serve de preparação?
O desfecho, construído em ritmo de ponte, sugere que muita pólvora foi guardada para uma terceira leva de episódios. O roteiro posiciona peças no tabuleiro, promete rearranjo de alianças e deixa o espectador naquele velho estado de alerta: ninguém ali dorme seguro.
Vista como ciclo fechado, a segunda temporada escorrega, mas não cai. Falta o choque inicial de novidade, falta o magnetismo da dupla protagonista atuando em cena conjunta, falta condensar melhor as subtramas. Ainda assim, há tensão, há tiroteio criativo e há a permanente sensação de que poder corrompe — mesmo em palacetes cercados de cavalos de raça.
Vale apertar o play?
Para quem vibrou com a estreia, a resposta é sim, com ressalvas. A jornada de Eddie rumo ao lado sombrio rende camada nova a Theo James e satisfaz quem gosta de ver a linha moral dos personagens esfarelando. A ausência prolongada de Susie no núcleo central incomoda, mas encontramos compensação em Geoff, Lady Sabrina e nos diálogos que lembram por que Guy Ritchie colocou essa produção na mira dos assinantes.
Quem era fã da dança de provocações entre Eddie e Susie pode sentir saudade. A boa notícia: o gancho final indica reencontro explosivo logo adiante. Até lá, Magnatas do Crime 2ª temporada cumpre o papel de manter a franquia viva, mesmo sem repetir a mesma faísca que incendiou o primeiro ano.
Então, sim, ainda vale assistir. Só não espere sair com a mesma euforia da estreia. Encara-se como capítulo intermediário, daqueles necessários para preparar ataques futuros. Maratonar continua divertido, embora o seriado precise afiar novamente as garras para não virar só mais um título acomodado no vasto catálogo da Netflix.
