Marcelo Adnet está prestes a lançar o trabalho mais inusitado da carreira. No dia 23 de julho, o humorista estreia no Globoplay como Fernando Veiga, um empresário de futebol inescrupuloso que antagoniza o ex-jogador Maurício, vivido por Cauã Reymond, em “Jogada de Risco”. Longe de piadas e bordões, o ator afirma ter mergulhado num registro dramático sem medo e comemora a confiança da equipe: “Quando chegou o convite, eu aceitei na hora”.
A mudança de tom marca uma virada para quem construiu fama imitando políticos e apresentando programas de esquetes. “Não tenho apego à comédia”, resume Adnet, que vê o projeto como chance de mostrar outras camadas de sua atuação. A nova série, ambientada nos bastidores milionários do futebol, usa corrupção, jogos de poder e noites de luxo para tensionar a relação entre o empresário vivido pelo ator e o protagonista que busca redenção fora dos gramados.
Virada de chave na carreira
O histórico de Adnet na TV brasileira sempre esteve atrelado ao humor, da MTV aos programas de variedades da Globo. Mesmo assim, ele garante nunca ter sentido que o rótulo de comediante fosse limitador. “O humor às vezes parece uma prisão porque o mercado quer que você repita o mesmo formato. Mas o público, na verdade, tem curiosidade de ver outro lado do artista”, argumenta. A proposta de interpretar um vilão que negocia talentos como se fossem mercadorias veio, segundo o ator, em momento oportuno: “Eu buscava um desafio que me tirasse do automático”.
Ao contrário do que se poderia imaginar, a transição não exigiu aula extra de expressão dramática nem ensaios de preparação emocional intensiva. “Sou formado em atuação, e o drama sempre esteve na base dos estudos. Só não aparecia tanto na televisão”, diz. A confiança do protagonista Cauã Reymond e do diretor René Sampaio reforçou a sensação de terreno seguro para experimentar.
Bastidores do futebol como pano de fundo
“Jogada de Risco” acompanha Maurício, estrela que perdeu a carreira por lesões somadas a más decisões do pai-empresário Valdemar (Marcos Frota). Longe do campo, o ex-atleta decide empresariar jovens promessas, trombando com a influência de Fernando Veiga, papel de Adnet. A série apresenta olheiros, contratos clandestinos, apostas ilegais e o fluxo de dinheiro que circula entre empresários e clubes.
Para Adnet, retratar esse universo ainda pouco explorado nas produções nacionais foi determinante para aceitar o papel. “Todo mundo vê o jogo, mas quase ninguém conhece a engrenagem que move as cifras fora das quatro linhas. Nosso roteiro expõe essas negociações, às vezes glamourosas, às vezes bem sombrias”, comenta.
Pesquisa e referências
- Jogadores aposentados que se tornaram agenciadores inspiraram o arco de Maurício.
- Jornalistas esportivos e advogados especializados ajudaram a equipe a entender cláusulas contratuais.
- Atores visitaram centros de treinamento para observar a rotina de empresários e jovens atletas.
Esse mergulho em fatos reais garantiu, segundo o elenco, um tom mais “sujo e underground” – características destacadas por Adnet como diferenciais para envolver o espectador.
Humor como ferramenta, não obrigação
Longe de impor piadas ao personagem, o ator defende que o riso surge apenas quando a cena permite. “Mesmo numa sequência de sexo que filmamos, o humor apareceu naturalmente em pequenos gestos, sem quebrar a tensão dramática”, recorda. Para ele, entender a função de cada momento evita que o espectador seja puxado para fora da história: “O comediante também precisa ter a generosidade de não roubar cena onde o sorriso não serve ao enredo”.
Exemplos internacionais inspiram a mudança
Adnet cita nomes como Robin Williams e Steve Carell – comediantes que se consagraram em papéis densos – para ilustrar que migração de gênero não é novidade lá fora. O movimento, avalia, começa a ganhar corpo no Brasil e pode abrir caminho para elenco mais versátil: “Quando um ator de humor assume o drama, ele leva o público que já o admira e, ao mesmo tempo, surpreende quem o via como ‘só piada’”.
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Colaboração nos bastidores
Além da parceria com Cauã Reymond, Adnet destaca o entrosamento de todo o elenco, que inclui nomes como Luellem de Castro, Pedro Wagner e Jonathan Azevedo. “Estávamos todos num terreno desconhecido; isso nivelou a troca”, afirma. A equipe técnica também teve papel decisivo: “Havia consultoria de ex-dirigentes de clubes, preparadores físicos e até apostadores, para garantir verossimilhança”.
Esse ambiente colaborativo permitiu que improvisos fossem incorporados ao roteiro. Em uma das cenas de negociação, por exemplo, gestos espontâneos de Adnet levaram o diretor a alongar o take e transformar o trecho em momento chave da temporada.
Expectativa para a estreia
Com oito episódios na primeira leva, “Jogada de Risco” desembarca no Globoplay em 23 de julho, sob a promessa de mostrar que o glamour do futebol profissional esconde acordos nebulosos. A plataforma aposta no formato de thriller esportivo para conquistar fãs de séries policiais e de novelas ligadas ao esporte.
Adnet, por sua vez, avalia que o impacto mais interessante será ver o público reagir à sua faceta vilanesca: “Quero que as pessoas esqueçam do comediante e passem a odiar o personagem – esse é o melhor sinal de que funcionou”. Mesmo sem abandonar o humor de vez, ele planeja equilibrar a carreira entre os dois registros: “Se surgir outro drama instigante, estarei pronto; se for comédia, também. O importante é ter boa história”.
O futuro além da série
Nos bastidores, especula-se que o Globoplay já estuda uma segunda temporada, dependendo da recepção do público. Perguntado sobre continuidade, Adnet se mostra cauteloso: “Vamos lançar, sentir a repercussão e depois conversar. O universo do futebol tem assunto para muitas temporadas, mas tudo depende de roteiro forte e de agenda”. Ele também não descarta retomar projetos de humor na TV aberta ou no streaming em paralelo.
Enquanto isso, o ator mantém em cartaz o podcast satírico “Marcelo Adnet Apresenta”, mostrando que a migração para o drama não significa abandonar o gênero que o consagrou. “Eu só não quero ficar preso a ele”, conclui, reforçando a máxima que guiou sua entrada em “Jogada de Risco”.
