Depois de uma sequência de sucessos que transformaram Yellowstone em franquia e consolidaram um universo próprio na TV norte-americana, Taylor Sheridan prepara a volta às salas de exibição. O roteirista e diretor terá dois projetos simultâneos, Visalia e Capture the Flag, ambos já em fase de desenvolvimento e produzidos pela sua Bosque Ranch Productions em associação com a 101 Studios.
A investida encerra um intervalo de três anos desde seu último longa, Those Who Wish Me Dead, e coincide com o novo contrato de cinco anos firmado com a NBCUniversal, que prevê atuação paralela em cinema e televisão. A manobra sugere um ajuste de rota: sem abandonar as séries, o showrunner quer diversificar o portfólio e explorar territórios que seus westerns contemporâneos ainda não alcançaram.
Retomada após hegemonia televisiva
Sheridan multiplicou séries no Paramount+ – 1883, 1923, Tulsa King e Special Ops: Lioness são alguns exemplos – até se tornar um dos nomes mais valiosos da indústria. Entretanto, o realizador começou a carreira justamente na telona, escrevendo Sicario (2015) e A Qualquer Custo (2016), este indicado ao Oscar. Desde 2021 a cadeira de diretor estava vazia, ocupada pela rotina de showrunner que exige supervisão de roteiros, casting e pós-produção em ritmo industrial.
A assinatura com a NBCUniversal abre margem para diminuir o volume seriado e realocar energia em longas. O acordo autoriza que Visalia e Capture the Flag recebam tratamento prioritário, contemplando salas de cinema tradicionais em vez de estreias diretas no streaming. Fontes ligadas ao estúdio estimam que as filmagens comecem ainda em 2025, alinhadas à janela de calendário que Sheridan liberou ao encerrar a temporada final de Yellowstone.
Visalia: drama político sobre exílio e retorno
Primeiro da fila, Visalia aposta em narrativa mais íntima que os épicos rurais do autor. A trama acompanha uma jovem cubana que foge de Havana em busca de liberdade nos Estados Unidos. Anos depois, uma virada política no arquipélago a obriga a regressar para lidar tanto com o governo quanto com laços familiares desfeitos. Sheridan pretende explorar pontos de tensão entre idealismo juvenil e pragmatismo adulto, costurando questões de imigração, pertencimento e culpa.
Embora ambientado fora do universo cowboy que o consagrou, o roteiro mantém a marca registrada do cineasta: protagonistas resilientes confrontados por sistemas maiores do que eles. O ângulo geopolítico, contudo, sinaliza curiosidade renovada de Sheridan por dramas urbanos e internacionais, distanciando-o do cenário rural estadunidense que permeia Yellowstone e seus derivados.
Capture the Flag: ficção científica em clima de thriller
O segundo projeto mergulha em terreno até então inexplorado pelo autor: a ficção científica de alta tecnologia. Capture the Flag segue um engenheiro da NASA responsável por desenvolver uma nave reutilizável capaz de alcançar a Lua e retornar com segurança. A corrida para cumprir o objetivo atrai um bilionário ambicioso que oferece recursos ilimitados – contanto que o engenheiro aceite sacrificar protocolos éticos.
Com isso, Sheridan promete um suspense calcado em dilemas morais, pressão midiática e política de bastidor na era do “capitalismo espacial”. Elementos de crítica social, já presentes em seus roteiros anteriores, agora ganham contorno futurista. A expectativa é de um filme tenso, sem abandonar o pé no realismo que costuma nortear sua filmografia.
Origem das ideias e parceria com Andrew Lauren
Tanto Visalia quanto Capture the Flag nasceram de pitches originais do produtor Andrew Lauren, herdeiro da grife Ralph Lauren e investidor frequente em cinema independente. Os dois colaboraram nos tratamentos de roteiro antes mesmo de Yellowstone estourar em 2018; à época, Sheridan arquivou os projetos para priorizar a série. Com o sucesso consolidado e a estrutura da Bosque Ranch madura, as histórias ressurgem agora com sinal verde.
Imagem: IMDB.
Lauren permanece no time como produtor executivo, dividindo responsabilidades com David Glasser, CEO da 101 Studios, braço constante nas empreitadas de Sheridan. A combinação garante financiamento robusto e distribuição que deve contemplar tanto o mercado norte-americano quanto o circuito internacional.
Novo equilíbrio entre telas
Embora o retorno ao cinema roube os holofotes, o calendário de Sheridan na televisão continua vivo. Já estão confirmadas a segunda temporada de Tulsa King e a encomenda de 1944, novo prelúdio de Yellowstone. A diferença é que, sob o guarda-chuva da NBCUniversal, ele consegue escalar showrunners adicionais para tocar as séries, liberando-o para a pré-produção dos longas.
Analistas de mercado avaliam que essa redistribuição de tarefas reduz a dependência de um único formato e blinda o criador contra eventual saturação do faroeste contemporâneo. Ao mesmo tempo, expande sua reputação em Hollywood, território que ainda o reconhece mais como roteirista do que como diretor de cinema.
Impacto para o público e para Hollywood
Para o espectador, os anúncios representam a chance de observar Sheridan longe das pradarias e do chapéu de cowboy. A escolha de dramas que investigam imigração e exploração espacial sugere vontade de provar versatilidade, algo comum entre showrunners que migraram de volta às telonas – caso recente de Sam Levinson, de Euphoria, que prepara largada parecida.
Nos bastidores, estúdios veem na movimentação um termômetro de que a fronteira entre TV premium e cinema começa a se reequilibrar depois do pico de investimentos em streaming. Projetos autorais de médio orçamento, faixa que abrigará ambos os filmes, voltam a aparecer em agendas de executivos, e Sheridan surge como laboratório de viabilidade comercial.
Próximos passos
Enquanto aguardam escalas de filmagem, equipes de casting e design de produção já foram acionadas. Procuram-se talentos latinos para Visalia e especialistas em efeitos práticos para as sequências espaciais de Capture the Flag. Nenhum nome de elenco foi oficialmente divulgado, mas circulam rumores de que Sheridan pretende trabalhar com rostos menos conhecidos para reforçar a sensação de autenticidade, sobretudo no drama cubano.
Quando enfim estrearem, os dois títulos marcarão o primeiro teste do novo contrato de exclusividade entre Sheridan e NBCUniversal. Caso alcancem bilheteria e crítica favoráveis, o acordo prevê gatilhos para novos filmes. Em outras palavras, Visalia e Capture the Flag podem inaugurar não apenas uma nova fase do cineasta, mas também um ciclo de investimentos da empresa em propriedades intelectuais inéditas, afastando-se da dependência de franquias pré-existentes.
